segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O João-de-Barro e a Passarinha


Um dia ele enfim encontrou uma companheira. No futuro, agora não seria mais sozinho, o João-de-Barro. Sempre estaria com ela, pensando nela, feliz com ela.
Não foi fácil para o pássaro bobo e e pouco experimentado nessas coisas de sentimento aceitar sua louca paixão por aquela passarinha. Só fez isso quando já não podia enganar a si mesmo e, assustado com a idéia de se tornar um mentiroso, passou a se aceitar como vassalo de sua amada.
Ela fazia o tipo independente, teimosa e muito experiente, mas nada além de uma garotinha linda que vivia a sonhar em um "não-sei-quê" o dia todo. Era imaginativa, inteligente, interpretava metáforas como ninguém. Só um defeito possuia, mas aquele a que a tudo atrapalharia: ela, a passarinha, não gostava do João-de-Barro.
Para ela isso estava claro, no máximo o que teriam seria uma aventura, ou nem isso se duvidassem. O pequeno fato que, mais tarde, arrasaria o pobre passarinho é que ela jamais revelaria a verdade assim, tão aberta e sinceramente. Não, claro que não... Afinal, não perderia essa perversa diversão. se divertiria primeiro com o tolo a quem conquistara.
E assim aconteceu. Ele fez tudo, absolutamente tudo mesmo por ela. Já não cantava para outra se não para ela. A meia dúzia de pensamentos que carregava em seu cérebro minúsculo de passarinho estavam sempre nela. Vivia para aquela que imaginava ser sua passarinha. Até construiu uma casinha para os dois viverem juntos. Por dias trabalhou para isso, buscando barro na ponta do bico para modelar seu ninho. Fez tudo e com tanto amor que não se deu conta do que estava acontecendo.
Ela, sempre daquele jeito bandido, seduzindo o pobre coitado. Tudo nela parecia um feitiço para ele. Os olhos, brilhantes e cor-de-mel; o voar, com um bater de asas que aumentava a pulsação de João; o perfume, o inebriava; também as penas, o bico, a voz e tudo mais que fosse dela. Estava perdido, enfim, condenado!
A passarinha, todavia, sempre naquela, "não te quero, mas fica do meu lado". E ele, sem opção (não que quisesse uma...), ficava.
E assim foi, um mês, dois, seis e um ano. Até brigaram uma vez, mas depois voltaram ao mesmo jogo, bastou ela fazer sinal.
Aí, um dia, ela (claro!) decidiu acabar com tudo, sem dizer nada. Apenas falou que iria embora, para outro lugar, outra vida. Tinha cansado daquilo em que vivia (dele).
E foi... Numa manhã de outono partiu.
Dele nunca mais se ouviu falar.

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