quinta-feira, 10 de junho de 2010

O Menino


Um dia o menino saiu de casa. Levava consigo uma pequena sacola, dentro dela algumas peças de roupa. Do futuro, nada esperava naquele fim de tarde. Tinha apenas uma certeza: jamais retornaria.

Havia perdido os pais muito cedo. Sua única referência era um retrato antigo que desde sempre trazia em seu bolso. Logo que ficou órfão, foi levado para casa da avó, com quem viveu até os 11 anos. Tudo era triste desde esse tempo. A avó nunca perdoara o pai do menino. Acusava-o de ter lhe tirado sua filha única. Por ser, também, filho único, herdara sozinho o que pertencera ao pai: o ódio da carrasca. E como tal ela o tratava. Deu graças a Deus no dia em que finalmente morreu. Sem saber se no céu ou no inferno, desejava apenas que a avó se resolvesse com o pai. Nem desconfiava de quem poderia estar certo, sabia apenas que pouco ou nada tinha a ver com tudo aquilo.

Seu destino, depois do enterro da velha, era o abrigo municipal. Não fosse por uma tia surgida não se sabe de onde, teria se juntado aos outros miseráveis esquecidos pela sorte. Antes tivesse sido assim. Desta vez a sorte não apenas lhe esquecera como condenara. Saíra das mãos da avó louca para os domínios de uma tia tirana. Escravizá-lo, concluiu o menino anos depois, era seu único objetivo quando decidira “adotá-lo”. E fez de tudo: foi pedinte, vendedor, flanelinha, trombadinha, engraxate e, quando dava, estudante, afinal o governo até pagava.

Nada disso lhe doía. Para ele sempre fora assim, era aquele o caminho, inquestionável. Se a tia lhe maltratava, lhe chamava de vagabundo e preguiçoso, diferença nenhuma fazia. Ele era apenas um sem nome, sem história, mais um nada.

***

Um dia ele mudou. Levantou cedo, como sempre, e saiu a procura de algo menos insuportável que a presença da tia. Vagando pelas ruas do centro antigo onde crescera, parou em frente a uma vitrine. E ali ficou, por longos minutos, mergulhado em uma reflexão, coisa que antes nunca fizera. Nada se especial havia naquela vitrine, já havia passado por ali centenas de vezes e era sempre a mesma coisa, TVs exibindo em sincronia um programa qualquer. O que viu naquela manhã, porém, foram mais que imagens mudas de um programa matinal. A TV mostrava um homem, com roupas em frangalhos, pele queimada pelo sol, rosto demasiadamente envelhecido para idade que possuía, com uma barba ainda pueril. Fitou seus olhos de desesperanças e só aí se deu conta que a triste figura do tal homem era o reflexo do menino que um dia fora, e que desaparecia ali.

Seguiu sem destino por horas. Buscava descobri como aquilo acontecera, quem era aquele que agora lhe aparecia sem avisar, tão de repente. Era apenas um menino quando saíra de casa pela manhã, não havia como retornar homem, assim, sem explicação. Não havia como continuar subjugado a partir dali. Fez, então, o que havia para ser feito.

Como o dia parecia já querer ir embora, sem que ninguém o percebesse, entrou em casa, pegou as poucas roupas ainda utilizáveis e foi. Não sabia para onde, nem porque ia. Apenas seguia em busca de um algo que pudesse chamar de vida e, quem sabe, felicidade.

2 comentários:

Anônimo disse...

Adalto minha prima e eu gostamos muito deste texto

Adalto Pontes disse...

Valeu, Suellen!!